Confissões é a autobiografia espiritual de Santo Agostinho, escrita em 13 livros por volta de 397 a 400.
O livro é uma longa oração: Agostinho conta a própria vida falando diretamente com Deus.
Indicado para quem tem um filho afastado da fé, para quem já se afastou e para quem gosta de pensar. Nota do portal: 5 de 5.
Quem foi Santo Agostinho
Agostinho nasceu em 354, em Tagaste, cidade do norte da África que hoje fica na Argélia. O pai, Patrício, era pagão. A mãe, Mônica, era cristã fervorosa. Ela rezou durante anos pela conversão do filho, e essa história atravessa o livro inteiro.
O jovem Agostinho era brilhante. Estudou retórica, a arte de falar em público, e virou professor em Cartago, depois em Roma e em Milão. Também viveu anos com uma companheira, com quem teve um filho, Adeodato. Durante quase uma década, seguiu o maniqueísmo, uma seita que prometia explicar o mal pela razão.
Em Milão, conheceu o bispo Santo Ambrósio. As pregações dele mudaram a forma como Agostinho lia a Bíblia. Em 386, depois de uma longa crise interior, ele se converteu. Foi batizado por Ambrósio na Páscoa de 387. Anos depois, já de volta à África, foi ordenado padre e tornou-se bispo de Hipona, onde morreu em 430.
Do que trata o livro
Confissões foi escrito entre 397 e 400, quando Agostinho já era bispo. Tem 13 partes, chamadas de livros. Os nove primeiros contam a vida dele, da infância até a morte de Mônica, em Óstia, pouco depois do batismo. O décimo fala da memória e de como Agostinho se via no momento em que escrevia. Os três últimos são uma meditação sobre o tempo e sobre os primeiros versículos do Gênesis.
A palavra confissão tem aqui dois sentidos. É confessar os próprios pecados, sem esconder nada. E é também confessar, isto é, proclamar, a grandeza e a misericórdia de Deus. O livro inteiro é escrito como uma oração, em segunda pessoa. Agostinho não fala com o leitor. Fala com Deus, e o leitor escuta.
Esse detalhe muda tudo. Não é uma autobiografia para se exibir. É um homem maduro olhando para trás e descobrindo que Deus estava presente até nos anos em que ele fugia.
As ideias centrais
A primeira grande ideia aparece logo no começo: fomos feitos para Deus, e o nosso coração fica inquieto enquanto não descansa n'Ele. Essa frase resume o livro. Agostinho procurou a felicidade no sucesso, no prazer, na fama de bom orador e em filosofias da moda. Nada o satisfez por muito tempo.
A segunda ideia é a da graça. Agostinho mostra que não se converteu por esforço próprio. Ele queria mudar, mas não conseguia. Descreve com honestidade a luta entre duas vontades, a que deseja Deus e a que ainda se agarra aos velhos hábitos. A mudança veio como um dom.
A terceira ideia é a da busca interior. Agostinho procurou Deus fora, nas coisas criadas, e descobriu que Ele estava dentro, mais íntimo que o próprio íntimo. Daí nasce uma das passagens mais conhecidas, que começa com as palavras tarde Vos amei.
O que mais marca na leitura
Duas cenas costumam ficar na memória de quem lê. A primeira é a do jardim em Milão. Agostinho, em lágrimas, ouve uma voz de criança que repete: toma e lê. Ele abre as cartas de São Paulo e encontra o trecho de Romanos 13 que fala de revestir-se de Cristo. Ali a crise termina.
A segunda é a conversa com Mônica numa janela em Óstia, pouco antes de ela morrer. Mãe e filho falam do céu e, por um instante, sentem que o tocam. Poucos dias depois, ela adoece. Pede apenas que o filho se lembre dela no altar do Senhor. É uma das páginas mais bonitas da literatura cristã sobre a morte de uma mãe.
Também impressiona a franqueza. Agostinho conta que, ainda menino, roubou peras só pelo prazer de fazer o errado. Analisa esse pequeno furto com uma seriedade que surpreende. Para ele, ali estava a raiz de todo pecado: querer o mal porque é proibido.
Para quem indicamos
Para mães e pais que rezam por um filho afastado da Igreja. A perseverança de Santa Mônica é um consolo concreto. Para quem se afastou da fé e sente que voltou tarde demais. Para quem gosta de pensar e tem perguntas sobre o mal, o tempo e o sentido da vida.
Também é ótimo para quem quer entender a raiz de muita coisa que a Igreja ensina sobre a graça e o pecado. O Catecismo cita Agostinho dezenas de vezes.
Para quem talvez não seja a melhor escolha agora: quem procura uma leitura leve para antes de dormir, ou quem está começando a ler os santos e se cansa com textos longos. Nesse caso, vale começar por um livro mais curto e voltar às Confissões depois.
Como ler sem desanimar
A dica principal é ler os nove primeiros livros primeiro. Eles contam a história e prendem a atenção. Os livros 10 a 13 são mais filosóficos. Podem ser lidos numa segunda etapa, com calma, ou até deixados para outra fase da vida.
Escolha uma tradução com notas. As notas explicam nomes de pessoas, cidades e correntes de pensamento da época. Sem elas, alguns trechos ficam confusos. Ler um livro por semana é um bom ritmo. Muitos capítulos são curtos e cabem em quinze minutos de leitura.
Uma sugestão prática: leia com um lápis na mão. Marque as frases que parecem oração e reze com elas. Agostinho escreveu o livro para isso. Também ajuda ler com a Bíblia por perto, porque ele cita os Salmos o tempo todo.
Se quiser um apoio, a catequese que o papa Bento XVI dedicou a Santo Agostinho é uma ótima introdução. Está no site do Vaticano, em português.
Contexto que ajuda a entender
Agostinho viveu no fim do Império Romano. Pouco depois de escrever as Confissões, viu Roma ser saqueada, em 410. Morreu com Hipona cercada pelos vândalos. Era um mundo em crise, e talvez por isso o livro fale tanto a quem vive tempos de mudança.
A Igreja celebra Santo Agostinho em 28 de agosto. Na véspera, 27 de agosto, celebra Santa Mônica. As duas datas juntas lembram que a conversão do filho tem muito a ver com as lágrimas da mãe. Veja as datas no calendário de santos do portal.
Como usar em grupo ou em família
O livro funciona bem em grupos de estudo. Uma proposta simples: ler um dos nove primeiros livros a cada encontro e conversar sobre uma pergunta. Por exemplo, onde eu procurei a felicidade fora de Deus? Quem rezou por mim sem que eu soubesse?
Para mães que rezam pelos filhos, os trechos sobre Mônica rendem um encontro inteiro. Vale terminar com uma oração pelos filhos e netos afastados da fé.
Ficha do livro
Título: Confissões. Título original: Confessiones. Autor: Santo Agostinho, bispo de Hipona e Doutor da Igreja. Escrito: entre 397 e 400, em latim. Gênero: autobiografia espiritual e oração. Estrutura: 13 livros. Tamanho: costuma ficar entre 300 e 450 páginas, conforme a tradução e as notas. Há várias traduções em português, de editoras católicas e de editoras gerais.
Nossa avaliação
Nota 5 de 5. Confissões é um dos livros mais importantes da história do cristianismo e continua atual depois de dezesseis séculos. Poucas obras mostram com tanta verdade como Deus age na vida de alguém que resiste a Ele.
A nota leva em conta que a leitura exige paciência, sobretudo na parte final. Mesmo assim, o que o leitor recebe vale o esforço. Quem lê Agostinho entende melhor a si mesmo. E entende que nunca é tarde para começar de novo.