Lucas começa o seu Evangelho com dois anúncios de nascimento. O primeiro é feito ao sacerdote Zacarias, no Templo de Jerusalém, durante o culto (Lc 1,5-25). O anjo Gabriel promete que a sua esposa Isabel, idosa e estéril, terá um filho: João Batista. Zacarias duvida e fica mudo até o nascimento.
O segundo anúncio é bem diferente. “No sexto mês”, isto é, seis meses depois da gravidez de Isabel, o mesmo anjo Gabriel é enviado a uma cidade da Galileia chamada Nazaré (Lc 1,26). Não é o Templo, não é a capital. É uma aldeia pequena, que nem aparece no Antigo Testamento.
O anjo vai ao encontro de uma virgem prometida em casamento a um homem chamado José, da casa de Davi. “E o nome da virgem era Maria” (Lc 1,27). O contraste entre os dois anúncios é parte da mensagem: Deus age na periferia, com quem é pequeno e confia.
A expressão “cheia de graça” traduz uma palavra grega que indica alguém que foi e continua sendo repleto do favor de Deus. É como se fosse o novo nome de Maria. O anjo não a chama pelo nome de batismo, mas pelo que Deus fez nela.
Maria fica perturbada e se pergunta o que significa aquela saudação (Lc 1,29). Ela não se envaidece. Ela pensa. Ao longo do Evangelho de Lucas, Maria aparece várias vezes assim: guardando as coisas e meditando-as no coração (Lc 2,19).
O anúncio: o Filho do Altíssimo (Lc 1,30-33)
“Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus” (Lc 1,30). O “não tenhas medo” aparece muitas vezes na Bíblia sempre que Deus se aproxima de alguém. O encontro com Deus impressiona, mas não destrói.
Em seguida vem o anúncio: Maria vai conceber e dar à luz um filho, e lhe dará o nome de Jesus (Lc 1,31). Jesus quer dizer “Deus salva”. O anjo acrescenta que ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, receberá o trono de Davi e o seu reino não terá fim (Lc 1,32-33).
Para uma jovem judia, essas palavras lembravam a promessa feita a Davi pelo profeta Natã: um descendente dele teria um reino estável para sempre (2Sm 7,12-16). O que o povo esperava havia séculos estava começando ali, numa casa simples de Nazaré.
A pergunta de Maria (Lc 1,34-37)
Maria então pergunta: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem?” (Lc 1,34). A pergunta é diferente da de Zacarias. Ele pediu uma prova porque duvidava. Maria não duvida; ela quer saber como colaborar. É a pergunta de quem já está disposta a dizer sim.
O anjo responde: “O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Lc 1,35). A imagem da sombra lembra a nuvem que cobria a Tenda do Encontro no deserto, sinal da presença de Deus (Ex 40,34-35). Maria se torna a nova morada de Deus no meio do povo.
Como sinal, o anjo conta que Isabel, a parente idosa e estéril, já está no sexto mês. E conclui com uma frase que atravessa a Bíblia: “Para Deus nada é impossível” (Lc 1,37).
O “faça-se” (Lc 1,38)
A resposta de Maria é curta e completa: “Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Em latim, “faça-se” é fiat, e por isso essa resposta é chamada de “o fiat de Maria”.
Maria se apresenta como serva. Não é a submissão de quem não tem escolha. É a liberdade de quem confia. Ela não sabe tudo o que vai acontecer: a viagem a Belém, a fuga para o Egito, a cruz. Mas entrega a vida inteira nas mãos de Deus.
E o texto termina de modo simples: “E o anjo retirou-se de junto dela”. Depois do encontro, Maria fica sozinha com a sua fé. Logo em seguida, ela se levanta e vai servir Isabel. O sim a Deus vira, imediatamente, serviço ao próximo.
O que a Igreja ensina
O Catecismo afirma que a anunciação a Maria inaugura a “plenitude dos tempos” (Gl 4,4), isto é, o cumprimento das promessas de Deus (CIC §484). Deus quis, para formar um corpo ao seu Filho, a livre cooperação de uma criatura (CIC §488).
Sobre a saudação “cheia de graça”, o Catecismo explica que, para poder dar o assentimento livre da sua fé, era necessário que Maria fosse totalmente movida pela graça de Deus (CIC §490). Ao longo dos séculos, a Igreja reconheceu que ela foi preservada do pecado original desde a sua concepção, o dogma da Imaculada Conceição, proclamado pelo papa Pio IX em 1854 (CIC §491).
O parágrafo 494 diz que, ao responder “faça-se”, Maria tornou-se Mãe de Jesus e entregou-se totalmente à pessoa e à obra do seu Filho. E o 148 apresenta Maria como quem realiza do modo mais perfeito a obediência da fé. Os textos estão no Catecismo no site do Vaticano.
A anunciação na oração da Igreja
A Igreja celebra a Solenidade da Anunciação do Senhor no dia 25 de março, nove meses antes do Natal. Em Nazaré, a Basílica da Anunciação foi construída sobre o lugar que a tradição aponta como a casa de Maria.
As palavras do anjo também estão no início da Ave-Maria. O Catecismo lembra que é o próprio Deus que, por meio do anjo, saúda Maria, e que a nossa oração ousa retomar essa saudação (CIC §2676). Toda vez que rezamos o terço, repetimos as palavras de Gabriel.
Muitos católicos rezam também o Ângelus, três vezes ao dia, às seis da manhã, ao meio-dia e às seis da tarde. É uma pequena oração que recorda justamente a anunciação: o anjo do Senhor anunciou a Maria, eis a serva do Senhor, e o Verbo se fez carne. Veja como rezar nas orações do portal.
Na arte: a Anunciação de Fra Angelico
A imagem que acompanha este estudo é um retábulo pintado por Fra Angelico, frade dominicano italiano, por volta de 1425 a 1426. Hoje a obra está no Museu do Prado, em Madri.
No centro, o anjo Gabriel se inclina diante de Maria, sentada sob um pórtico, com as mãos cruzadas sobre o peito. Um raio de luz desce do alto em direção a ela. À esquerda, num jardim, aparecem Adão e Eva sendo expulsos do paraíso.
O pintor colocou as duas cenas lado a lado de propósito. Desde os primeiros séculos, os cristãos comparam Eva e Maria. Santo Ireneu, citado pelo Catecismo no parágrafo 494, ensinava que o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria. Onde houve um não, Deus prepara um sim.
Aplicação para hoje
A anunciação mostra que Deus entra na vida comum. Maria não estava num templo nem numa peregrinação. Estava em casa, na rotina. Deus também fala conosco na cozinha, no trabalho, no hospital, no ônibus.
A cena ensina ainda que perguntar não é falta de fé. Maria perguntou “como?”. Podemos levar a Deus as nossas perguntas, desde que estejamos abertos à resposta. E ensina que a fé verdadeira se traduz em serviço, como Maria correndo para ajudar Isabel.
Para quem chegou à maturidade, o “faça-se” ganha um sabor especial. Muitas vezes a vida não saiu como planejamos. Dizer sim a Deus no presente, com o que temos, é uma forma de paz. No Brasil, essa confiança tem o rosto de Nossa Senhora Aparecida. Para conhecer outras devoções marianas, veja a seção sobre Nossa Senhora.
Perguntas para reflexão
Em que lugares da minha rotina Deus pode estar tentando falar comigo? Qual é hoje o meu maior medo, e como recebo o “não tenhas medo” do anjo? Que pergunta eu gostaria de fazer a Deus?
Existe algum “faça-se” que estou adiando? Como o meu sim a Deus pode se transformar em serviço concreto a alguém, como Maria fez com Isabel?