Íñigo López de Loyola nasceu em 1491, no castelo da família, no País Basco, norte da Espanha. Foi criado para ser cavaleiro e homem da corte. Sonhava com fama, armas e damas. Em 1521, defendendo a cidade de Pamplona contra os franceses, teve a perna atingida por uma bala de canhão.
Durante a longa recuperação, pediu romances de cavalaria para passar o tempo. No castelo só havia uma vida de Cristo e um livro de vidas de santos. Íñigo leu por falta de opção e começou a perceber algo curioso: quando sonhava com glórias mundanas, ficava animado na hora, mas depois vinha um vazio. Quando pensava em imitar os santos, a alegria durava. Ali nasceu a sua conversão.
Depois disso, foi ao santuário de Montserrat, deixou sua espada aos pés de Nossa Senhora e passou cerca de um ano em Manresa, rezando, jejuando e anotando o que vivia. Mais tarde estudou em Paris, reuniu companheiros como São Francisco Xavier e fundou a Companhia de Jesus, aprovada em 1540. Morreu em Roma, em 1556, e foi canonizado em 1622.
Os Exercícios começaram como anotações pessoais em Manresa, entre 1522 e 1523. Inácio percebeu que o que tinha ajudado a ele poderia ajudar outros. Durante anos, revisou e completou o texto, à medida que dava os exercícios a amigos e estudantes.
O livro foi aprovado pelo papa Paulo III em 1548 e publicado em latim no mesmo ano. É um texto curto, mas denso, escrito com a precisão de um manual.
Um livro diferente dos outros
Os Exercícios não foram escritos para serem lidos de capa a capa, e sim para serem praticados. Inácio escreveu para quem orienta o retiro, não para quem o faz. Por isso o texto tem instruções, anotações, listas e regras, e quase nenhuma frase de efeito.
Quem abre o livro esperando uma leitura devocional como a Imitação de Cristo pode se decepcionar. Mas quem entende a proposta descobre uma ferramenta preciosa. É como comparar um livro de receitas com um romance. O livro de receitas só mostra seu valor quando você vai para a cozinha.
Como os Exercícios estão organizados
O retiro completo dura cerca de 30 dias, divididos em quatro semanas. Elas não precisam ter sete dias exatos, o orientador ajusta conforme a pessoa.
Antes de tudo vem o chamado Princípio e Fundamento: fomos criados para louvar, reverenciar e servir a Deus, e todas as coisas da terra são meios para esse fim. Daí nasce a ideia de indiferença, que não é frieza, mas liberdade interior para escolher o que mais ajuda a amar a Deus.
A primeira semana trata do pecado e da misericórdia. A segunda contempla a vida de Jesus, do nascimento ao ministério, e é o momento das grandes escolhas de vida. A terceira acompanha a Paixão. A quarta contempla a Ressurreição e termina com a Contemplação para alcançar amor, de onde vem a conhecida oração Tomai, Senhor, e recebei.
Também há uma versão adaptada, os Exercícios na vida cotidiana, feita ao longo de meses, com uma hora de oração por dia, sem deixar casa e trabalho.
As ideias centrais
A primeira é o discernimento. Inácio ensina a observar os movimentos interiores, que ele chama de consolação e desolação. A consolação aproxima de Deus, traz paz e aumenta a fé. A desolação traz inquietação, tristeza e afasta. Suas regras de discernimento continuam sendo usadas por diretores espirituais do mundo inteiro.
A segunda é a contemplação com a imaginação. Inácio pede que a pessoa entre nas cenas do Evangelho, veja os lugares, escute as falas, sinta o ambiente, como se estivesse presente. Assim o Evangelho deixa de ser história antiga e passa a ser encontro.
A terceira é o exame diário. Inácio propõe parar alguns minutos por dia para agradecer, revisar o dia e pedir perdão e luz. Essa prática simples já mudou a vida de muita gente que nunca fez o retiro completo.
O que mais marca na prática
Quem faz os Exercícios costuma dizer que sai conhecendo melhor a si mesmo e a Jesus. As meditações da segunda semana, como a das Duas Bandeiras, ajudam a perceber de que lado estamos nas pequenas escolhas do dia.
Também impressiona o realismo. Inácio prevê cansaço, distrações, entusiasmo passageiro e falsas luzes. Ensina, por exemplo, a não mudar decisões em tempo de desolação. É um conselho que vale para a vida inteira, inclusive fora do campo religioso.
Para quem indicamos
Para quem está diante de uma decisão importante, como casamento, vocação, mudança de trabalho ou de cidade. Para quem quer aprender a rezar com o Evangelho. Para catequistas, coordenadores de pastoral e quem já faz direção espiritual.
Para quem talvez não seja o melhor caminho agora: quem quer apenas uma leitura espiritual para o dia a dia. Nesse caso, é melhor procurar livros sobre os Exercícios ou sobre a espiritualidade inaciana. Também não é indicado fazer o retiro completo sozinho, sem orientador, sobretudo para quem está passando por crise emocional forte.
Como ler e como fazer
O ideal é fazer os Exercícios com um orientador preparado, em casas de retiro. No Brasil, há retiros de fim de semana, de oito dias e o mês completo. Pergunte na sua paróquia ou numa casa jesuíta.
Se quiser ler o livro antes, comece pelas anotações iniciais, pelo Princípio e Fundamento e pelas regras de discernimento. Depois, experimente o exame diário durante um mês. Use uma edição com introdução e notas, que explica a lógica de cada parte.
Para conhecer mais sobre o santo e sua ordem, o site da Companhia de Jesus traz materiais em várias línguas. No portal, a seção de estudos e a de Bíblia ajudam a preparar a oração com o Evangelho.
Contexto e influência
Os Exercícios formaram santos como São Francisco Xavier e São Pedro Fabro, e influenciaram toda a espiritualidade católica moderna. O papa Pio XI, em 1922, declarou Santo Inácio padroeiro de todos os exercícios espirituais. O papa Francisco, primeiro jesuíta a ocupar a cadeira de Pedro, falava com frequência do discernimento inaciano.
A festa de Santo Inácio é em 31 de julho. Veja no calendário.
Ficha do livro
Título: Exercícios Espirituais. Título original: Ejercicios espirituales. Autor: Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Origem: experiência em Manresa, 1522 e 1523, com revisões posteriores. Primeira edição: 1548, em latim, com aprovação do papa Paulo III. Gênero: manual de oração e retiro. Tamanho: o texto em si é curto, em geral menos de 200 páginas, mas edições comentadas podem ser bem maiores.
Nossa avaliação
Nota 4,5 de 5. Como método de oração e discernimento, os Exercícios são um dos maiores tesouros da Igreja. Poucas obras tiveram tanta influência na formação de santos, missionários e leigos comprometidos.
Tiramos meio ponto apenas como experiência de leitura. O texto é seco e técnico, pensado para o orientador. O valor do livro aparece por inteiro quando ele é vivido em retiro, e não lido na poltrona. Veja outros reviews de livros católicos.