Tomás de Kempis nasceu por volta de 1380 em Kempen, uma pequena cidade na atual Alemanha, perto da fronteira com a Holanda. O nome dele vem daí: Tomás, o de Kempen. Ainda jovem, foi estudar em Deventer, nos Países Baixos, onde conheceu os Irmãos da Vida Comum.
Esse grupo fazia parte de um movimento chamado Devotio Moderna, a devoção moderna. A proposta era simples: viver o Evangelho com seriedade, sem grandes teorias, buscando a oração pessoal, o trabalho e a vida em comunidade. Em vez de debates acadêmicos, eles queriam conversão do coração.
Tomás entrou no mosteiro de Monte Santa Inês, perto de Zwolle, onde passou quase toda a vida. Foi padre, copista de livros e mestre de noviços. Copiou a Bíblia inteira à mão, além de muitos outros textos. Morreu em 1471, com mais de 90 anos, no mesmo mosteiro.
Durante séculos houve discussão sobre a autoria. Algumas pessoas atribuíram o livro a outros autores da época. Hoje, a maioria dos estudiosos aceita Tomás de Kempis como autor. Um argumento forte é o manuscrito escrito por ele mesmo, concluído em 1441, que está guardado na Biblioteca Real de Bruxelas.
Para o leitor comum, essa discussão pesa pouco. O que importa é que o texto nasceu dentro da Devotio Moderna e reflete a experiência de quem passou a vida inteira rezando no silêncio de um mosteiro.
Do que trata o livro
A Imitação de Cristo é dividida em quatro livros. O primeiro traz conselhos úteis para a vida espiritual: humildade, desapego, cuidado com a língua, lembrança da morte. O segundo fala da vida interior e da amizade com Jesus. O terceiro, o mais longo, é um diálogo entre o discípulo e Cristo sobre o consolo de Deus. O quarto é dedicado à Eucaristia e à preparação para a comunhão.
Os capítulos são curtos, muitos com menos de uma página. As frases parecem provérbios. Não é um livro para ler de uma vez, é um livro para mastigar devagar. Por isso tanta gente o deixa na mesa de cabeceira ou na bolsa, para ler um capítulo por dia.
As ideias centrais
A ideia que dá nome ao livro é seguir Jesus de perto, imitando a vida dele. Logo no primeiro capítulo, o autor lembra que quem segue Cristo não anda nas trevas. Saber muitas coisas sobre Deus não basta. É melhor sentir arrependimento do que saber defini-lo.
Outra ideia forte é a humildade. O livro insiste que conhecer a si mesmo, com as próprias fraquezas, é mais útil do que muito estudo. Pede que o leitor não julgue os outros, tenha paciência com os defeitos alheios e desconfie da vaidade.
Há também a lembrança de que a vida passa depressa. O autor fala da morte com serenidade, como quem se prepara para uma viagem. A famosa expressão latina sobre a glória do mundo que passa resume esse tom. Para o leitor de hoje, pode parecer duro. Na prática, ajuda a colocar as preocupações no tamanho certo.
O que mais marca na leitura
O terceiro livro costuma tocar fundo. Nele, Jesus fala diretamente ao discípulo, que responde com perguntas, queixas e pedidos. O tom é de intimidade. Quem está passando por tristeza, solidão ou cansaço encontra ali palavras de consolo muito concretas.
Outro ponto que impressiona é a atualidade. Escrito há quase seis séculos, o livro fala de inveja, de ansiedade, de vontade de agradar a todos e de falar demais. Parece descrever o mundo das redes sociais.
Vale lembrar que grandes santos se formaram com este livro. Santa Teresinha contou que, quando jovem, sabia a Imitação quase de cor. Santo Inácio de Loyola também a recomendava aos seus companheiros.
Para quem indicamos
Para quem quer criar o hábito de uma leitura espiritual diária e não tem muito tempo. Para quem atravessa um momento de sofrimento e precisa de consolo. Para quem quer se preparar melhor para a comunhão: o quarto livro é ótimo para ler antes da missa. Saiba mais sobre a Eucaristia na nossa seção de sacramentos.
Para quem talvez não seja o momento: quem está muito fragilizado emocionalmente e pode ler certas frases como desprezo pelo mundo e pelas pessoas. O livro foi escrito para monges. Algumas passagens sobre fugir da convivência precisam ser entendidas no contexto de quem vive em família e trabalha fora.
Como ler na prática
Leia um capítulo por dia, não mais. Antes de começar, faça uma pequena oração pedindo luz. Depois de ler, escolha uma frase e leve-a para o resto do dia. À noite, pense se conseguiu viver aquela frase.
Não é preciso seguir a ordem. Muita gente começa pelo segundo livro, que é mais acolhedor. Outros abrem o livro ao acaso, como quem procura uma palavra para o momento. As duas formas são válidas.
Prefira uma tradução com linguagem atual. Algumas edições antigas usam um português difícil, com muitos pronomes em desuso. Uma boa tradução torna a leitura muito mais fluida. Edições de bolso funcionam bem, porque cabem na bolsa e acompanham o leitor na fila do banco ou no ônibus.
Para quem gosta de rezar com a Bíblia, uma dica é ler o capítulo do dia junto com o Evangelho da missa. Veja a liturgia diária no portal.
Um livro para várias fases da vida
A Imitação de Cristo é daqueles livros que mudam conforme o leitor muda. Aos 20 anos, as frases sobre humildade parecem exageradas. Aos 50, depois de algumas quedas, soam como conselho de um amigo sábio. Aos 70, as páginas sobre a morte trazem paz.
Por isso vale ter um exemplar só seu, sublinhado e com anotações. Muitos avós deixam a própria Imitação de herança para os netos, com as marcas de uma vida inteira de leitura.
Há ainda um uso que poucos conhecem. O quarto livro, sobre a Eucaristia, pode ser lido aos poucos durante a adoração ao Santíssimo. Um capítulo basta para preencher meia hora de silêncio diante do sacrário. Muitos leitores dizem que, depois dessa experiência, passaram a comungar com outro cuidado e outra alegria.
Ficha do livro
Título: Imitação de Cristo. Título original: De Imitatione Christi. Autor: Tomás de Kempis, conforme a atribuição mais aceita. Escrito: por volta de 1418 a 1427, em latim. Gênero: espiritualidade e meditação. Estrutura: quatro livros com capítulos curtos. Tamanho: costuma ter entre 200 e 350 páginas, dependendo do formato. Há muitas edições em português, inclusive de bolso. A Enciclopédia Católica traz um verbete sobre o autor, em inglês.
Nossa avaliação
Nota 5 de 5. A Imitação de Cristo é um clássico que cabe na rotina de qualquer pessoa. Os capítulos curtos, a linguagem direta e a profundidade espiritual fazem dele um companheiro para a vida inteira.
O único cuidado é lembrar que o livro foi escrito para monges do século XV. Algumas frases pedem leitura com bom senso, adaptando o espírito delas à vida de quem tem família, trabalho e compromissos. Feito isso, o livro é um tesouro. Se você está começando a ler os clássicos, ele é uma ótima porta de entrada, ao lado dos textos dos santos que você encontra em santos e padroeiros.
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