Gilbert Keith Chesterton nasceu em Londres, em 1874. Estudou arte, mas fez carreira como jornalista, ensaísta, poeta e romancista. Escreveu dezenas de livros e milhares de artigos. Era enorme, distraído e muito engraçado. Ficou famoso pelos debates públicos com intelectuais ateus e céticos da época, como George Bernard Shaw e H. G. Wells, de quem era amigo.
Muita gente o conhece pelas histórias do Padre Brown, um padre detetive que resolve crimes entendendo a alma humana. O personagem foi inspirado num amigo de Chesterton, o padre John O'Connor.
Criado num ambiente religioso vago, Chesterton passou por uma juventude de dúvidas e angústia. Aos poucos, chegou ao cristianismo. Escreveu Ortodoxia como membro da Igreja Anglicana. Em 1922, foi recebido na Igreja Católica justamente pelo padre O'Connor. Morreu em 1936, em Beaconsfield, perto de Londres.
Em 1905, Chesterton publicou Hereges, um livro que criticava as ideias da moda entre os intelectuais ingleses. Um crítico respondeu que era fácil atacar a filosofia dos outros. Desafiou o autor a dizer qual era a sua. Ortodoxia, de 1908, é essa resposta.
Chesterton avisa logo no início que não vai escrever um tratado de teologia. Vai contar, de forma pessoal, como chegou às suas convicções. E brinca dizendo que se sentiu como um navegador inglês que, depois de uma longa viagem, desembarca orgulhoso numa terra nova e descobre que era a própria Inglaterra. Ele pensou ter inventado uma filosofia. Descobriu que ela já existia e se chamava cristianismo.
Do que trata o livro
Por ortodoxia, Chesterton entende a fé expressa no Credo dos Apóstolos, aquilo que os cristãos acreditam há séculos. O livro não discute detalhes de doutrina. Mostra por que essa fé faz sentido diante da vida real.
São nove capítulos. Os primeiros analisam o pensamento moderno e mostram onde ele falha. Depois, Chesterton conta o que aprendeu com os contos de fadas da infância. Em seguida, mostra como o cristianismo responde, uma a uma, às suas intuições. Os últimos capítulos falam do progresso, da tradição e da autoridade da Igreja.
As ideias centrais
A primeira grande ideia é que a loucura não é falta de razão, e sim razão sem nada mais. O louco, diz Chesterton, perdeu tudo menos a razão. Ele raciocina perfeitamente dentro de um círculo pequeno e fechado. Muitas filosofias modernas fazem o mesmo: explicam tudo, mas deixam a vida menor.
A segunda ideia vem dos contos de fadas. Chesterton diz que eles ensinam uma verdade profunda: o mundo é uma surpresa, um presente que não merecemos. Daí nasce a gratidão. E nasce também a ideia de que toda alegria vem com uma condição, como a abóbora da Cinderela, que só dura até a meia-noite.
A terceira ideia é a dos paradoxos do cristianismo. Chesterton percebeu que os críticos atacavam a fé por razões contrárias. Uns diziam que era pessimista demais. Outros, que era otimista demais. Uns acusavam de ser pacifista, outros de ser violenta. Ele concluiu que o cristianismo devia ser algo equilibrado, que mantém juntas verdades que parecem se opor, como a justiça e a misericórdia.
Por fim, há a defesa da tradição, que ele chama de democracia dos mortos. Ouvir a tradição é dar voto aos nossos antepassados, e não só aos que estão vivos agora.
O que mais marca na leitura
O humor. Chesterton é capaz de explicar uma ideia séria com uma piada, uma imagem inesperada ou uma comparação absurda. Lê-se o livro sorrindo, mesmo nos capítulos mais densos.
E marca a alegria. Para muitos, a fé parece um conjunto de proibições. Chesterton mostra o contrário. Para ele, a ortodoxia é uma aventura emocionante, como uma carruagem que corre pelos séculos sem tombar, desviando dos erros de um lado e do outro. Quem lê termina com vontade de agradecer pela existência de coisas simples, como a grama, o sol e o pão.
Para quem indicamos
Para quem gosta de pensar e tem perguntas sobre a razão da fé. Para avós e pais que querem presentear um neto ou filho universitário cercado de críticas ao cristianismo. Para quem se afastou da Igreja por achar que fé e inteligência não combinam. Para quem ama boa literatura.
Para quem talvez não seja o livro certo: quem procura um texto de oração ou de devoção. Ortodoxia é um livro de ideias. Também pode cansar quem não está acostumado a ensaios: Chesterton cita autores e debates ingleses do começo do século XX, e algumas referências exigem paciência ou notas.
Como ler
Leia um capítulo por vez e dê um intervalo de alguns dias entre eles. Cada capítulo é um ensaio completo e merece ser digerido. O mais conhecido e talvez o melhor para começar é o quarto, sobre a ética da terra das fadas.
Não se preocupe em entender todas as referências. Se o nome de um filósofo ou escritor não for familiar, siga em frente. O argumento principal quase sempre fica claro. Uma edição com notas ajuda muito.
Ler em voz alta, em grupo, é uma ótima experiência, porque as frases de Chesterton têm ritmo e graça. Para continuar, vale conhecer O Homem Eterno, de 1925, outro clássico do autor. A Sociedade Chesterton, nos Estados Unidos, mantém um site com materiais sobre a obra, em inglês.
Contexto que ajuda a entender
Chesterton escreveu numa época de grande confiança no progresso e na ciência. Muitos intelectuais achavam que a religião ia desaparecer. Ele foi na direção contrária e mostrou que o cristianismo explicava melhor o mundo do que as novidades da moda.
Mais de um século depois, o livro continua atual. As ideias que ele critica mudaram de nome, mas não de fundo. Para aprofundar as razões da fé, veja a seção de catecismo e a de estudos do portal. E para dúvidas comuns, a seção de dúvidas.
Uma conversa entre gerações
Uma experiência bonita é ler Ortodoxia junto com um filho ou neto jovem. Cada um lê um capítulo na semana e depois os dois conversam por mensagem ou num café. O livro oferece assunto para horas: a razão, a liberdade, a alegria, o sentido da tradição.
Muitos jovens se surpreendem ao descobrir que a fé dos avós tem respostas inteligentes para perguntas que eles achavam novas. E muitos avós se surpreendem com a profundidade das perguntas dos netos. Chesterton faz essa ponte com leveza, sem sermão.
Ficha do livro
Título: Ortodoxia. Título original: Orthodoxy. Autor: Gilbert Keith Chesterton. Primeira edição: 1908, na Inglaterra. Gênero: ensaio e apologética cristã. Estrutura: nove capítulos, além do prefácio. Tamanho: livro curto a médio, em geral entre 150 e 250 páginas. Há várias edições em português, de diferentes editoras.
Nossa avaliação
Nota 4,5 de 5. Ortodoxia é um dos livros mais brilhantes já escritos em defesa da fé cristã. Une inteligência, humor e alegria de um jeito raro. Ajudou muitas pessoas a voltar para a fé e continua sendo indicado por padres, professores e leitores de todo o mundo.
Tiramos meio ponto porque algumas referências culturais da Inglaterra de 1908 tornam certos trechos mais difíceis para o leitor brasileiro de hoje. Vale lembrar também que o livro foi escrito antes da conversão do autor ao catolicismo. Mesmo assim, poucas leituras fazem tão bem à cabeça e ao coração. Veja outros reviews de livros católicos.