"Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador..." Para muitos brasileiros, essa foi a primeira oração aprendida no colo da mãe ou da avó. Ela acompanha a hora de dormir, as viagens e os momentos de medo. Com o passar dos anos, porém, surgem perguntas. Os anjos existem mesmo? Cada pessoa tem o seu? O que a Igreja ensina e o que é invenção?
Sim. O Catecismo é direto: a existência dos seres espirituais, que a Bíblia chama de anjos, é uma verdade de fé (§328). O testemunho da Escritura é claro, e a Tradição da Igreja é unânime nesse ponto.
O próprio Credo fala disso quando dizemos que Deus é criador "de todas as coisas visíveis e invisíveis". Os anjos estão entre as criaturas invisíveis. Eles não são deuses, nem energias, nem almas de pessoas falecidas. São criaturas de Deus, como nós, mas de outra natureza.
O que é um anjo
O Catecismo cita uma explicação de Santo Agostinho. A palavra anjo indica uma função, não a natureza. Pela natureza, o anjo é espírito; pelo que faz, é anjo, isto é, mensageiro (§329). A palavra vem do grego e quer dizer justamente "mensageiro".
Os anjos são criaturas puramente espirituais, com inteligência e vontade. São pessoais e imortais, e superam em perfeição todas as criaturas visíveis (§330). Não têm corpo. Por isso, as asas e as roupas que vemos nas imagens são linguagem da arte, para mostrar que eles vêm de Deus e servem a Ele.
Cristo é o centro do mundo dos anjos. Eles pertencem a Ele, foram criados por Ele e para Ele (§331). Na Bíblia, eles anunciam a salvação, protegem pessoas e servem ao plano de Deus. Basta lembrar o anjo que anuncia a Maria, os anjos do Natal e os anjos que confortam Jesus na agonia (§332 e §333).
Cada pessoa tem um anjo da guarda?
O parágrafo 336 do Catecismo é o mais importante sobre o tema. Ele afirma que, desde o começo até a morte, a vida humana é acompanhada pela proteção e pela intercessão dos anjos. E cita São Basílio: cada fiel tem a seu lado um anjo como protetor e pastor, para conduzi-lo na vida.
A Bíblia dá base para essa fé. Jesus diz sobre as crianças: "os seus anjos, nos céus, veem continuamente a face de meu Pai" (Mateus 18,10). O Salmo 91 promete que Deus dará ordens aos seus anjos para guardar o fiel em todos os seus caminhos.
O Catecismo também diz que toda a vida da Igreja se beneficia da ajuda misteriosa e poderosa dos anjos (§334). Na liturgia, a Igreja se une a eles para adorar a Deus, como no "Santo, Santo, Santo" da Missa (§335). Em resumo, os anjos glorificam a Deus sem parar e servem aos seus planos para o nosso bem (§350).
Os anjos na Bíblia e na liturgia
As histórias bíblicas mostram os anjos agindo de forma concreta. No livro de Tobias, o arcanjo Rafael acompanha o jovem Tobias numa longa viagem, protege-o dos perigos e o ajuda a curar a cegueira do pai. Nos Atos dos Apóstolos, um anjo liberta Pedro da prisão, abrindo as portas e conduzindo-o até a rua (Atos 12).
A liturgia da Igreja guarda essa confiança. O Catecismo lembra que, nos funerais, a Igreja reza para que os anjos conduzam o falecido ao paraíso (§335). É a antiga oração conhecida pelas palavras latinas "In paradisum". Ela mostra que, na fé católica, os anjos acompanham a pessoa até o último momento e além dele.
Na Missa, cada vez que rezamos o "Santo", unimos nossa voz ao canto dos anjos descrito pelo profeta Isaías. Vale a pena lembrar disso no próximo domingo.
A festa de 2 de outubro
A Igreja celebra os Santos Anjos da Guarda em 2 de outubro. A data aparece no calendário litúrgico e é uma boa ocasião para agradecer pela proteção recebida ao longo da vida.
Poucos dias antes, em 29 de setembro, a Igreja celebra os arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael. São os únicos anjos cujos nomes aparecem na Bíblia. Miguel é o defensor contra o mal, Gabriel é o mensageiro da Anunciação e Rafael acompanha Tobias na viagem, no livro de Tobias.
Cuidados para uma devoção sadia
A devoção aos anjos é antiga e bonita, mas pode sofrer desvios. O Vaticano publicou em 2001 o Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia, que trata disso no número 217. O documento alerta contra três exageros.
O primeiro é ver a vida como uma luta entre espíritos bons e maus em que a pessoa não tem responsabilidade nenhuma. O segundo é atribuir ao demônio cada pequena contrariedade e ao anjo da guarda cada sucesso, de um jeito infantil. O terceiro é dar nomes particulares aos anjos. O Diretório diz que esse costume deve ser reprovado, exceto para Miguel, Gabriel e Rafael, que aparecem na Escritura.
Por isso, desconfie de livros, sites ou "terapias" que prometem descobrir o nome do seu anjo, falar com ele por cartas, cristais ou números. Isso não faz parte da fé católica. O texto do Diretório pode ser lido no site do Vaticano, em italiano.
E os anjos caídos?
A fé católica também ensina que existem anjos que se rebelaram contra Deus. A Bíblia e a Tradição veem em Satanás um anjo caído, que escolheu livremente recusar Deus (§391).
Mas é importante não exagerar o poder do mal. O Catecismo lembra que Satanás é apenas uma criatura. Ele é poderoso por ser espírito, mas não consegue impedir a construção do Reino de Deus (§395). O cristão não vive com medo, porque Cristo venceu o mal na cruz.
Perguntas que muita gente faz
Quando morremos, viramos anjos? Não. É uma ideia comum, principalmente quando morre uma criança, mas não corresponde à fé. Os anjos são outra criatura. Nós somos seres humanos, corpo e alma, e esperamos a ressurreição. Os falecidos que estão no céu são santos, não anjos.
Quem não é católico também tem anjo da guarda? O Catecismo fala da vida humana como um todo, do começo à morte (§336). Grandes teólogos, como São Tomás de Aquino, ensinaram que todo ser humano recebe um anjo da guarda. O cuidado de Deus não faz distinção de pessoas.
Posso rezar ao meu anjo da guarda todos os dias? Pode e é recomendável. A oração tradicional é curta: "Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa e me ilumina. Amém." Encontre outras orações na seção de Orações.
Uma prática para esta semana
Que tal retomar a oração ao anjo da guarda ao acordar e ao deitar? Pode ser também antes de pegar a estrada ou de uma consulta médica. Ensinar a oração aos netos é um presente que dura a vida inteira.
Vale ainda agradecer. Muitas pessoas, ao olhar para trás, reconhecem livramentos que não sabem explicar. A fé católica convida a ver nesses momentos a mão de Deus, que cuida de nós também por meio dos seus anjos.