Quem já perdeu alguém querido conhece a pergunta: onde ele está agora? Será que posso fazer alguma coisa por ele? A fé católica responde com esperança. E uma parte importante dessa resposta é a doutrina do purgatório.
O tema costuma gerar medo ou confusão. Há quem imagine um lugar de castigo parecido com o inferno, só que temporário. Há quem pense que é uma invenção da Idade Média. Nesta matéria, vamos ver o que o Catecismo realmente ensina, com os números dos parágrafos para você conferir.
O Catecismo explica em poucas linhas. Quem morre na graça e na amizade de Deus, mas ainda não está totalmente purificado, já tem a salvação garantida. Mesmo assim, passa depois da morte por uma purificação, para alcançar a santidade necessária para entrar na alegria do céu (§1030).
A Igreja chama essa purificação final de purgatório e faz questão de dizer que ela é totalmente diferente do castigo dos condenados (§1031). Quem está no purgatório já está salvo. A pessoa não corre mais o risco de se perder. Ela está a caminho do encontro definitivo com Deus.
Uma imagem ajuda. Imagine alguém que ama muito outra pessoa, mas chega ao encontro com a roupa suja depois de uma longa viagem. Antes de abraçar, ele quer se lavar. A tradição cristã fala do purgatório como esse desejo de estar inteiramente limpo para ver Deus face a face.
De onde vem essa doutrina
A doutrina do purgatório foi formulada sobretudo nos concílios de Florença, no século 15, e de Trento, no século 16 (§1031). Mas a fé que ela expressa é muito mais antiga.
O Catecismo cita um trecho do Antigo Testamento, no segundo livro dos Macabeus. Judas Macabeu mandou oferecer um sacrifício pelos soldados mortos, para que fossem libertados dos seus pecados (2 Macabeus 12,46). Ninguém reza por quem já está no céu nem por quem está perdido. A oração pelos mortos supõe que eles ainda podem ser ajudados (§1032).
O Catecismo lembra também que, desde os primeiros tempos, a Igreja honra a memória dos falecidos e oferece sufrágios por eles, especialmente a Missa (§1032). Nas catacumbas de Roma, há inscrições antigas pedindo orações pelos mortos.
O Catecismo lembra ainda que a Tradição da Igreja, apoiada em passagens como 1 Coríntios 3,15 e 1 Pedro 1,7, fala de um "fogo purificador" (§1031). Essa linguagem é uma imagem. A Igreja não ensina detalhes sobre como é essa purificação nem quanto tempo dura.
Por que é preciso purificação
Para entender, o Catecismo explica que o pecado tem uma dupla consequência (§1472). O pecado grave nos afasta de Deus e, sem arrependimento, leva à perda da vida eterna. Essa é a chamada pena eterna.
Mas todo pecado, mesmo o venial, também cria um apego desordenado às criaturas. Esse apego precisa ser purificado, aqui na terra ou depois da morte. É o que a Igreja chama de pena temporal (§1472). O perdão de Deus apaga a culpa e a pena eterna, mas podem restar essas marcas (§1473).
O purgatório não é vingança de Deus. É a última etapa do amor que transforma. O mesmo parágrafo diz que essas penas não devem ser vistas como uma vingança vinda de fora, mas como consequência da própria natureza do pecado.
Como podemos ajudar os falecidos
Aqui está a parte mais consoladora. Por causa da comunhão dos santos, os vivos podem ajudar os que estão sendo purificados (§958). Somos uma só família em Cristo, e o amor não termina com a morte.
O Catecismo indica caminhos concretos. A Missa oferecida pelos falecidos é o principal (§1371). A Igreja também recomenda a esmola, as indulgências e as obras de penitência em favor dos mortos (§1032). Rezar o terço, fazer uma novena ou uma caridade na intenção de alguém também são formas de ajuda.
As indulgências merecem uma palavra. Elas são a remissão, diante de Deus, da pena temporal dos pecados já perdoados (§1471). Podem ser aplicadas aos falecidos como sufrágio (§1479). Um exemplo conhecido acontece em novembro. Entre os dias 1º e 8, a Igreja concede indulgência plenária, aplicável só aos falecidos, a quem visita um cemitério e reza pelos mortos. Valem as condições habituais: confissão, comunhão e oração nas intenções do Papa.
Passo a passo: como pedir uma Missa por um falecido
Muitas famílias querem mandar celebrar uma Missa pelo pai, pela mãe ou por um amigo. O caminho é simples. Procure a secretaria da sua paróquia e diga o nome completo da pessoa falecida e a data desejada. Algumas paróquias recebem pedidos também por telefone ou mensagem.
É comum que a família ofereça uma contribuição, chamada espórtula ou oferta. O valor e a forma variam de paróquia para paróquia, e ninguém deve deixar de pedir uma Missa por falta de dinheiro. Converse com a secretaria sobre isso.
As datas mais procuradas são o sétimo dia, o trigésimo dia e o aniversário de falecimento. O dia de Finados, em 2 de novembro, também é uma ocasião especial de oração por todos os que morreram.
O purgatório e a nossa vida agora
A doutrina do purgatório não serve só para pensar nos mortos. Ela também ilumina a vida de quem está aqui. O Catecismo ensina que uma conversão nascida de um amor fervoroso pode levar à purificação completa, de modo que nenhuma pena reste (§1472).
Em outras palavras, a purificação pode começar já. O mesmo Catecismo diz que o cristão deve aceitar, como uma graça, os sofrimentos e as provações da vida, enfrentando a morte com serenidade (§1473). Quem oferece a Deus uma doença, uma perda ou uma dificuldade com paciência está, de certo modo, sendo purificado no amor.
Por isso, os santos falavam do purgatório sem desespero. Para eles, o que importa é crescer no amor a Deus e ao próximo a cada dia. A confissão frequente, a Eucaristia e as obras de caridade são os caminhos ordinários dessa purificação. Quem quer se preparar bem pode ler a matéria sobre a confissão em Sacramentos.
Perguntas que muita gente faz
Quanto tempo uma alma fica no purgatório? A Igreja não ensina nada sobre isso. Depois da morte, a medida do tempo não é a nossa. Por isso, é bom continuar rezando pelos falecidos por toda a vida, sem ansiedade.
Posso rezar por alguém que morreu há muitos anos? Pode, e é um gesto de amor. Não sabemos em que situação cada pessoa está, por isso a Igreja reza por todos os falecidos, sem exceção. A piedade popular costuma dizer que nenhuma oração se perde nas mãos de Deus. E rezar pelos nossos mortos também nos faz bem.
As almas do purgatório podem rezar por nós? Muitos fiéis acreditam que sim e pedem sua ajuda. O Catecismo, ao falar da comunhão com os defuntos, diz que a nossa oração por eles pode tornar eficaz a intercessão deles em nosso favor (§958).
Para rezar pelos falecidos, veja as orações da seção de Orações. O texto do Catecismo sobre o tema está no site do Vaticano, a partir do parágrafo 1030.