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Foto de Padre Cícero

1844 a 1934

Padre Cícero

Juazeiro do Norte (CE) · Redação Portal Católico da Fé · Revisado periodicamente pela Equipe de Catequistas

Foto: Autor desconhecido, Domínio público

Resumo

  • Nasceu no Crato (CE) em 1844 e viveu mais de 60 anos em Juazeiro do Norte, onde morreu em 1934.
  • Teve as ordens suspensas após o episódio da hóstia de 1889; a carta de 2015 reconheceu o bem que fez aos pobres.
  • Desde 2022 é Servo de Deus; a fase diocesana da causa terminou em 2025 e segue em Roma.

Origem e família

Cícero Romão Batista nasceu em 24 de março de 1844, no Crato, cidade do sul do Ceará. Era filho de Joaquim Romão Batista, pequeno comerciante, e de Joaquina Vicência Romana, conhecida em casa como dona Quinô. Tinha duas irmãs, Maria Angélica e Angélica Vicência.

A família era simples e católica. Por isso, o menino cresceu entre a reza do terço, as festas de padroeiro e a vida de uma cidade sertaneja do século 19. Desde cedo, segundo seus biógrafos, demonstrava interesse pela vida religiosa.

Em 1862, porém, a família sofreu um golpe duro. O pai morreu de cólera no Crato, durante uma epidemia que atingiu a região. Cícero estudava então no colégio do padre Inácio de Sousa Rolim, em Cajazeiras, na Paraíba, e precisou interromper os estudos. A partir daí, a casa passou a depender de recursos muito curtos.

Vocação e formação

Mesmo com as dificuldades, a vocação continuou firme. Com ajuda do padrinho de crisma, o coronel Antônio Luiz Alves Pequeno, Cícero conseguiu seguir para Fortaleza. Em 1865, entrou no Seminário da Prainha, a principal casa de formação de padres do Ceará naquela época.

A formação não foi tranquila. Em 1866, ele precisou sair do seminário por causa de febres e passou cerca de dois meses se recuperando no Crato. Além disso, relatórios dos formadores registraram críticas ao seu jeito de pensar. Em 1870, o reitor, o padre francês Pierre-Auguste Chevalier, chegou a escrever que ele não deveria ser apresentado à ordenação.

Ainda assim, o caminho se abriu. Em 30 de novembro de 1870, aos 26 anos, Cícero foi ordenado padre. Em 2020, quando a data completou 150 anos, Juazeiro do Norte celebrou o aniversário com missa e programação especial.

A chegada a Juazeiro

Depois da ordenação, o jovem padre voltou para a região do Cariri. Em abril de 1872, assumiu como capelão o pequeno povoado de Juazeiro, que na época pertencia ao Crato. Há registro de um batizado feito por ele ali em 13 de abril de 1872.

Juazeiro era então um lugarejo pobre, com poucas casas em volta de uma capela dedicada a Nossa Senhora das Dores. Padre Cícero decidiu ficar. Nas décadas seguintes, dedicou-se a confessar, a pregar, a aconselhar famílias e a organizar a vida religiosa do povo. Também incentivou o trabalho e a vida comunitária.

Aos poucos, o padre ganhou fama de homem de oração e de conselho. Gente do sertão inteiro passou a procurá-lo para pedir orientação, ajuda e consolo. Assim, o povoado começou a crescer em torno da sua figura. Hoje a antiga capela deu lugar à Basílica de Nossa Senhora das Dores, centro religioso da cidade.

O episódio de 1889 e a reação da Igreja

Em 1º de março de 1889, aconteceu o fato que mudaria a sua história. Durante uma comunhão, a beata Maria de Araújo teria recebido a hóstia, e esta teria se tornado sangue em sua boca. O episódio se repetiu outras vezes, segundo os relatos da época. A notícia correu o Nordeste e atraiu romeiros em grande número.

A Igreja, porém, agiu com cautela. O bispo do Ceará, Dom Joaquim José Vieira, mandou investigar. Uma primeira comissão diocesana, em 1891, não encontrou explicação natural para os fatos. Em seguida, o bispo convocou uma segunda comissão, que concluiu de forma oposta e considerou o caso uma fraude. Por isso, a Igreja não reconheceu o episódio como milagre.

As consequências para o padre foram pesadas. Em 1892, ele foi proibido de pregar, de confessar e de dar direção espiritual. Mais tarde, o Santo Ofício, em Roma, confirmou as sanções. Em 1897, por ordem de Roma, ele precisou deixar Juazeiro por um tempo, e a punição foi mantida.

Em 1898, Padre Cícero viajou a Roma para tentar resolver a sua situação. Partiu do Recife em fevereiro e só voltou ao Brasil em outubro. Mesmo assim, ao retornar ao Ceará, o bispo afirmou não ter recebido comunicação oficial de Roma que mudasse o quadro. Ele morreu em 1934 com as ordens suspensas. Fontes da imprensa e da diocese, contudo, destacam que ele não morreu excomungado.

Ministério, obras e vida pública

Impedido de exercer plenamente o ministério, Padre Cícero continuou em Juazeiro, perto do povo. Seguiu recebendo romeiros, aconselhando famílias e incentivando o trabalho, a vida simples e a oração. Para muitos sertanejos pobres, era a figura de referência em tempos de seca, fome e abandono.

Ao mesmo tempo, ele teve forte atuação política, tema que até hoje divide historiadores. Em 1911, Juazeiro se emancipou do Crato, e ele se tornou o primeiro prefeito da cidade. Nesse mesmo ano, assinou o chamado Pacto dos Coronéis. Afastado do cargo em 1913, voltou ao poder em 1914, no contexto da Sedição de Juazeiro, um conflito armado com o governo estadual.

Depois, foi eleito vice-presidente do Ceará, cargo que hoje corresponde ao de vice-governador. Em 1926, chegou a ser eleito deputado federal, mas não assumiu o mandato. Com a Revolução de 1930, a sua influência política diminuiu bastante.

Padre Cícero morreu em Juazeiro do Norte em 20 de julho de 1934, aos 90 anos. Foi sepultado na Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que se tornou um dos lugares mais visitados pelos romeiros. Todo dia 20 de julho, a cidade lembra a data com uma romaria.

Legado e devoção

Depois da morte, a devoção popular só cresceu. O povo do Nordeste passou a chamá-lo de "Padim Ciço" e a visitar Juazeiro em grandes romarias. Entre as principais estão a de Nossa Senhora das Dores, em setembro, considerada a mais antiga, a de Finados, em novembro, e a das Candeias, em fevereiro. Em 2019, segundo a secretaria de turismo do estado, a procissão de Finados reuniu cerca de 300 mil pessoas.

Por muitos anos, porém, a relação oficial da Igreja com sua memória ficou marcada pelas sanções antigas. Isso mudou de forma gradual. Em 2015, o então bispo do Crato, Dom Fernando Panico, recebeu uma carta assinada pelo cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano. Segundo o cardeal, o texto foi escrito por vontade expressa do papa Francisco.

A carta foi lida publicamente em 13 de dezembro de 2015, na abertura da Porta Santa do Ano da Misericórdia, na catedral do Crato. O texto reconhece aspectos positivos da sua ação como padre, sobretudo a proximidade com os pobres. A diocese e a imprensa trataram o documento como a reconciliação da Igreja com o padre. Ainda assim, alguns pesquisadores observam que a carta destaca virtudes, sem usar a palavra reconciliação de forma explícita.

O passo seguinte veio em 2022. Por carta de 24 de junho daquele ano, o Dicastério para as Causas dos Santos, por determinação do papa Francisco, concedeu o nihil obstat, ou seja, declarou não haver impedimento para abrir a causa. Dom Magnus Henrique Lopes, bispo do Crato, anunciou a decisão em 20 de agosto de 2022, em Juazeiro. Desde então, Padre Cícero recebe o título de Servo de Deus.

A abertura solene do processo aconteceu em 30 de novembro de 2022, data do aniversário da sua ordenação. A fase diocesana foi encerrada em junho de 2025, no Crato, depois de cerca de dois anos e meio de trabalho. Os documentos seguiram para Roma. Para que ele seja declarado beato, a Igreja ainda precisa reconhecer um milagre atribuído à sua intercessão. Até lá, não é correto chamá-lo de beato nem de santo.

Curiosidades

A grande estátua de Padre Cícero, na Colina do Horto, foi inaugurada em 1º de novembro de 1969. O monumento tem cerca de 27 metros e virou símbolo de Juazeiro do Norte. Do alto da colina, os romeiros veem a cidade inteira.

Em outubro de 2023, a Lei nº 14.693 inscreveu o nome de Padre Cícero no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, guardado no Panteão da Pátria, em Brasília. É uma homenagem civil do Estado brasileiro, separada de qualquer decisão da Igreja.

Muitos romeiros visitam Juazeiro com chapéus de palha, terços e fitas coloridas, costume que passa de geração em geração. A tradição conta que a romaria das Candeias teria sido criada pelo próprio Padre Cícero, mas a origem exata é incerta.

Vale lembrar que uma igreja separada de Roma, a Igreja Católica Apostólica Brasileira, chegou a declará-lo santo em 1973. Esse ato não tem valor para a Igreja Católica. Para os católicos, a causa oficial é a que corre na Diocese do Crato e em Roma.

Se você gosta de histórias de padres do Brasil, conheça também Frei Galvão, o primeiro santo nascido no país, e o Padre Donizetti, pároco de Tambaú beatificado em 2019. Outras histórias da fé estão em Curiosidades.

Onde conhecer mais

Juazeiro do Norte, no sul do Ceará, guarda os principais lugares ligados a Padre Cícero. Vale visitar a Basílica de Nossa Senhora das Dores, a Capela do Perpétuo Socorro, onde ele está sepultado, e a Colina do Horto, com a estátua e o caminho dos romeiros.

As datas mais fortes são 20 de julho, aniversário da morte, setembro, com a festa de Nossa Senhora das Dores, e 2 de novembro, com a romaria de Finados. Para acompanhar outras datas da Igreja, consulte o nosso calendário.

Informações sobre a causa de beatificação são divulgadas pela Diocese de Crato. Para uma leitura de referência sobre o anúncio de 2022, veja a reportagem do Instituto Humanitas Unisinos. O texto da homenagem civil está na Lei nº 14.693/2023, no site da Câmara dos Deputados.

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